Friday, April 09, 2010

ainda existe gente assim.

hoje no ponto de ônibus que raramente frequento, enquanto deliciava um risole ( quem não gosta?), encontrei o Boni.
Ele me chamou pelo nome, muito surpreso:
-Clara! Quanto tempo!

O Boni é funcionário do Colégio Nacional há 22 anos. Saí de lá há 7. Ele ainda lembra da maioria das coisas que aconteceram nos 8 anos que estudei lá. Lembra o nome da turma inteira. Lembra das festas, das fotos, das broncas. Sente saudade desse tempo e diz que fica muito feliz em época de eleição, que é quando voltamos ao Colégio para votar.


nada mais delicioso para um fim de tarde. =)

Wednesday, March 10, 2010

diário de bordo #2

Rio de janeiro, 50 graus.

07/01/10
Coco avant Chanel, de Anne Fontaine.

Vamos lá, é uma saga. Talvez seja mais fácil dizer que esse é o tipo de filme que me faz sair transtornada da sala .
Aliás, seria ainda mais fácil concluir que este tipo de filme provoque nas mulheres um misto de excitação e ansiedade com a vida, facilmente assimiladas. Assim sendo, podemos concluir que a história das grandes mulheres ( e dos grande homens, por que não?) é sempre recheada de aventuras amorosas que as dilaceram por dentro. Quando não o amor, uma tragédia, ou mais evidente: a guerra.
Então, como já é de costume, saí do cinema com mil idéias. Foi inevitável atravessar a rua e comprar um caderno, para tão somente poder sorver o delicioso capuccino da Livraria Prefácio (Botafogo) que recomento enormemente ( não só pelas delícias mas pelo bistrô com ambiente primoroso).
Desta vez, trouxe a Dama das Camélias (Dumas Filho), livro de bolso que comprei aqui mesmo na Prefácio.
Estou sentada em frente a uma pilha de livros de culinária. É fácil suspirar depois de assistir a uma história de amor, privações e volta por cima.

.:.
Ontem tivemos um dia delicioso em Ipanema.
Chegamos na hora do almoço, buscamos um lugar barato e sentamos, por fim, no Big Néctar, lanchonete tradicional, dessas que com as frutas cobrindo as prateleiras, aos montes no Rio. Foi uma experiência salgada, literalmente.
Saindo de lá, no calor típico da cidade maravilhosa, era impossível não buscar por uma sobremesa gelada, e voilà, um point de frozen yogurt nos aguardava logo ali na Teixeira de Mello. Foi fácil e estava uma delícia, especialmente o ar refrigerado da loja. Caminhamos até a Galeria Laura Marsiaj na mesma rua. Havia duas pequenas exposições ( a galeria é bem pequena, fiquei surpresa) de arte contemporânea. Gostei, mas fiquei mais interessada em como as obras foram dispostas do que o conteúdo em si. É a mania do momento, rs.
De qualquer forma, fiquei com vontade de voltar lá para conversar com a pessoa que nos atendeu: Daniele.
Fica para outro dia, quem sabe. De lá seguimos para a Lomography , loja para colecionadores ou entusiastas de câmeras lomo, pioneira no Brasil. A loja foi inaugurada há dois meses, e é uma graça. Imperdível. Após um bate-papo agradabilíssimo com o gerente da loja, Felipe, saímos de lá com duas lomolitos descartáveis: a minha com filtro amarelo, e a da Luísa com filtro vermelho. Ainda não experimentamos o suficiente.
Esqueci de dizer que antes de chegar à Lomography achamos um lugar seeensacional, o Market Ipanema . Além de charmoso e reservado o Market trabalha com um cardápio especial feito só de produtos orgânicos. Experimentamos um Smoothie de Amora com maracujá. Sensação: indescritível.
Como é perceptível eu e Luísa sempre nos embrenhamos em roteiros econômicos, porém com altas aspirações ao glamour. Neste mesmo dia, ainda foi possível visitar um shopping vertical de atacado, com coisas lindíssimas, sem comprar nada.
A última parada foi o Café Hum, da Visconde de Pirajá, ao lado da Papel Craft e seus lindos caderninhos. Vale a pena!
voltei para Botafogo no vagão exclusivo para mulheres ( sem levantar bandeiras!), terrível, lotado, e com um homem dentro (!!!). Ainda tive coragem de encarar um supermercado Mundial lotado e a a impaciência das senhorinhas com seus carrinhos. Voltei para a casa carregando sacolas pesadas. Depois do banho, sorvete e emails. É hora de dar tchau.

.:.

Voltando à Livraria Prefácio, onde ainda estou, olho em volta: as mesas estão todas ocupadas com pessoas com mais de quarenta anos. Pedi outro espresso, desta vez com canela. Gostaria muito de ganhar um livro de culinária *suspiro*... A meia luz e as paredes de pedra me fazem concluir que aqui deve ser o melhor lugar do mundo para escrever monografias. Acho que não existe lugar assim em Vitória. Quel dommage.. vou curtir meus últimos dias aqui, então. Começou a tocar Gotan Project, rs (pelo menos não sou blasée sozinha!). Hoje a gente ia ao Jardim Botânico, visitar as galerias e caminhar no Parque Lage. Ficou para amanhã. Sábado queria ir ao Instituto Moreira Salles , dica do Felipe da loja de Lomo.

Fizemos um roteiro. Espero conseguir fazer tudo antes de ir embora dia 17, caso nenhum estágio role. Estou esperando a resposta de um escritório que telefonei hoje na cara dura. Veremos.
Acho que quando começar a trabalhar vou comprar todos os livros do mundo. Ou gastar tudo em lomos e frozen yogurt.
"Não compare lomos com yogofresh" - disse o Felipe.
" Claro que não" - respondi. "O prazer do frozen yogurt é muito mais fugaz..."


Sou besta, né.





Wednesday, February 24, 2010

ano novo.

dois mil e dez, 2010.

lembro quando o ano seguinte era motivo de agitação e curiosidade. escrevia em letras garrafais o próximo ano da década de noventa nas páginas do diário, como se pudesse antecipá-lo.
parece que quando a gente fica velho é exatamente o contrário. sempre tentar reviver o que passou. chega 2010, estamos pondo as datas nos documentos com um ano de defasagem.

bem, essa semana me despeço do rio de janeiro. foi "bonito e diferente". dois meses na cidade grande que mal conheci, porque não sai da zona sul para quase nada. apesar de tudo, dos perrengues, dos momentos de estafa por causa do calor e tudo o mais, foi um lindo work experience brazil: não saio falando carioquês fluente, mas não tive que lavar banheiro de ninguém. além de tudo, ganhei alguma experiência profissional - e porque não?- de vida, que posso contar mais para frente. é realmente desesperador ter que abrir mão de mil filmes e exposições em cartaz, amizades novas, metrô, lagoa e ipanema. Mas tudo bem,
vamo que vamo, ano que vem tem mais.



adeus, meu santo amaro
eu dessa terra vou me ausentar
eu vou para bahia
eu vou viver,
eu vou morar.

Monday, July 20, 2009

observação #3

Joyce parecia apreensiva com seu primeiro dia de trabalho. Não conhecia nenhuma das meninas. Todas tagarelavam alto, sem perder de vista uma produção fordista incansável e admirável. Escolheu um canto e ali ficou com suas novas atribuições.


A padaria era pequena, ficava em um bairro simples no meio da cidade. Havia poucos clientes, mas muito o que fazer. Joyce ficaria no setor da lanchonete, montando os lanches. Às vezes, precisaria preparar outras coisas, como pesar frios e etiquetar pacotes de pãezinhos redondos. Não naquele dia.
Havia uma pausa de trinta minutos diários, divisíveis ao longo da jornada. Escolheu fracioná-los ao meio. Esticou as pernas, bebeu água. Não sentia fome.
Nos últimos dez minutos que tinha direito, optou por ler o trabalho que iria apresentar logo a seguir, na aula. Estudava à noite, o que significava dormir tarde praticamente todos os dias.

Bateu o ponto e seguiu para a escola. Tudo correu bem, como previsto.


Ao chegar em casa, a mãe perguntou como fora o dia. Estava visivelmente abatida, porém mentiu e esboçou com esforço um sorriso.
Deitada na cama, sem conseguir dormir, se pôs a pensar em muitas razões para largar tudo, desistir da escola e daquela vida, dos compromissos.
Mas Joyce era menina bem criada, aprendera a persistir. Virou-se de lado para um sono tranqüilo. No meio do turbilhão, foi capaz de se lembrar do jornaleiro bonito que trabalhava em frente à padaria.

amigo zumbi.

Em um bairro suburbano americano, esposas estonteantes cuidavam da casa e da família. Eram os anos cinqüentas. Entre jardins verdíssimos e cerquinhas brancas, aquela comunidade se assemelhava a qualquer outra vizinha. Mas não, não dentro daquelas casas.

Fazia um dia quente e duas famílias vizinhas resolveram fazer um churrasco. Um típico churrasco americano, os maridos tomando cerveja, falando sobre baseball e a guerra, enquanto as esposas, em vestidos lindíssimos, tomavam seus coolers, trocavam receitas.
O vizinho perguntou ao Sr. Roberson porque ele ainda possuía o zumbi doméstico. O Sr. Roberson sabia que o filho e a esposa eram muito apegados a ele, mas tentou desconversar. O vizinho achou esquisito o Sr. Roberson permitir esse tipo de relacionamento dentro de sua casa. “Zumbis não são confiáveis, são bichos”. – explicou.

Já era noite, e ao chegar em casa, o Sr. Roberson perguntou à esposa porque o zumbi estava sentado em sua poltrona. A Sra. Roberson respondeu que Fido gostava de ficar ali, e aumentou o som.
- Vamos dançar, querido?

Mary Roberson era uma mulher muito bonita. Os cabelos negros perfeitamente presos em um coque contrastavam com sua pele tão lisa e alva. Estava grávida de seu segundo filho, e o marido ainda não havia notado. Ignorava os problemas do dia –a – dia com tarefas e drinks. Era infeliz, mas naquele momento parecia estar se divertindo muito.
O marido olhou com fúria para a mulher. Saiu da sala, e quando voltou, a Sra. Roberson dançava com o zumbi.
- Fido gosta de dançar – disse ela, sorrindo. Venha, Bill!
O marido apontou o controle remoto em direção à coleira do zumbi, e apertou o botão. O zumbi pôs-se a gemer de dor, enquanto a Sra. Roberson tentava acudi-lo.
- Bill! – exclamou indignada.

No dia seguinte, a polícia veio buscar Fido. Quando o menino levantou, o carro que levava o zumbi já ia longe. Timmy gritava pela rua, o zumbi não tinha culpa em ter matado a Sra. Petterson. Era tarde demais.

Naquele dia, o pai resolveu levar o filho à escola. Dirigia um carro antigo azul e estava preocupado.
- Pai, você passou a escola. – disse Timmy com voz triste.
- Ah, sim – disse o pai distraído enquanto estacionava o carro – bem, eu... eu queria te dizer algo. – suspirou – sabe filho, eu.. sei que quando se é criança nós.. fantasiamos algumas coisas, quer dizer.. sentimos coisas. Filho, você precisa se livrar disso.
- Me livrar do quê?
- Sentimentos! Sentimentos não servem pra nada! O que importa é estar vivo, me entende?
- Ahm. – o menino resmungou sem entender.
- Bem.. – sorriu, ignorando-o – É por isso que lhe trouxe um presente. Tome.
O menino apanhou a caixa branca com laço azul e a abriu lentamente, sem imaginar seu conteúdo.
- Uma arma. – disse o menino, confuso.
-sim, uma arma – confirmou o pai
Sei que não devia comprá-la antes do seu aniversário de doze anos. Mas achei que era a hora. Você gostou? Não é bonita? Carregue sempre com você.

O menino colocou a arma na mochila. Não devia ter dez anos, mas já era capaz de compreender tudo. Zumbis só morrem com tiros. Com uma expressão ainda incrédula, abriu a porta do carro.
Ao fechá-la, o pai disse:
- Ah, não se esqueça das balas! - disse sorrindo ao jogar um pacote.

E a acelerou o carro.

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Sobre o filme Fido (2006) de Andrew Currie.

Sunday, June 21, 2009

observação #2

.:. Em frente à casa de Antônia, erguia-se um prédio. E nele, todos os dias, um novo pavimento.

Acordava às 7h, abria as cortinas, e lá estava ele, um magnífico bloco intransponível, tão cedo coberto de panos de vidro refletindo a paisagem. Neste ritual, se sentia parte de um livro, cada novo andar, um capítulo. Alguns minutos após a contemplação, fechava a bolsa e ia trabalhar. Com o tempo observou que nada poderia frear aquela construção.

Dia após dia, os peões trabalhavam, tais como robôs, exaustivamente no calor e no frio. Era, então, todas as manhãs, que percebia a passagem de mais um dia. Ou melhor, menos um dia. Menos um, menos um, menos outro.

Abrir as cortinas, e encontrar mais uma altura vencida daquele prédio eram parte da sua vida. Era como uma lufada de ar. Talvez Antônia contasse com aquela cena diária para continuar vivendo, não se sabe. Fato é que aquele momento lhe trazia conforto, era a segurança de que tudo permanecia como estava.
Assim seguiu, sem alterar sua rotina. Havia a esperança de o que prédio se estendesse ao infinito.


.:.

O homem dirigia seu SAAB azul antigo, como de praxe, após o café na lanchonete. Bacon, ovos e fritas.
Estacionou em frente ao prédio que morava, subiu as escadas carregando um pacote. Girou as chaves, abriu a porta. Ainda portava os óculos Wayfarer os quais não vivia sem. Deixou o saco com compras em cima do aparador, e jogou-se cansado no sofá. Ao fundo via-se uma pilha de livros ordenados. 64 livros e tinha acabado de escrever o último.
O cachorro, que não era seu, fitava-o, deitado sobre o carpete. Mr. Udall levantou-se, e se pôs a tocar um jazz no piano - o cachorro gostava -, até que tocaram a campainha. O merchand do vizinho, um balzaquiano esguio e negro, veio pedir o cachorro de volta: o artista voltara do hospital. O homem fingiu um sentimento de alívio ao entregar o cachorro, e fechou a porta.

Voltou ao piano. Tocava com dor, pesando os dedos nas teclas. Sua expressão era de desespero nítido, nunca alguém havia lhe feito companhia naquele apartamento silencioso e sóbrio.

“Over a dog!” – Exclamava. “Over a dog!”



.:.
ps: o cara no segundo do texto é o jack nicholson, rs. em as good as it gets, ( "melhor impossível"), que é impagável.

Sunday, May 10, 2009

Tuesday, May 05, 2009

diário de bordo #1

a volta do erea poços 2009.

Foi assim, tudo muito rápido, como as coisas boas sempre são. E aí, chega infelizmente o último dia de encontro, dia de catar o que você trouxe e desafiar as leis da física para comportar tudo em uma mala só. Comigo não foi diferente dessa vez. Então eu, dormindo no colchão alheio - já que o meu virou desinflável - tive minha primeira despedida. Foi às 6h. Depois, às 7h, às 8h, entre trocas de colchões, mais despedidas, mais abraços e beijos rápidos. Tudo assim, meio de mentira, meio de cinema, encurtando o "adeus" para não doer. Tive que levantar às 11h, inevitavelmente com a sensação de não ter dormindo nada, pra fazer caber as coisas na mala. E aí, mais uma corrida pela Cidade EREA, que desta vez era tipo um EREA Paraíso, EREA Estrela Guia - lugarzinho no meio do nada- , Caminho das índias, ou qualquer novela sensacional da Globo, para mais abraços. E juras de amor.. que eu nunca vi tanta gente se amar como esse povo de arquitetura. 12:30h consegui uma carona e fui para a rodoviária com John e Krusty. No caminho, mais histórias sensacionais, canalhices e bafons. Adoro. Cheguei achando que ia ter passagem cedo. Já tinha perdido o ônibus pra Campinas, comprei para o próximo horário: 15 pras 14h. Calmamente, eu e minha mala, nesta hora já nos 33% do meu peso, sentamos num banquinho. Aí chegou o Pará, mocinho descabelado da regional SP. Conversa vai, conversa vem, sentou um outro mocinho perto da gente, o qual tinha certeza ter visto no encontro. Até conversamos com ele, acho que era Juliano. Juliano faz Desenho Industrial na Unesp. Deve ter seus 25 anos, cabelos grandes, calça e jaqueta jeans, e nos fones um Led Zeppelin bombando. Entrou no ônibus comigo e pediu pra sentar do meu lado. Achei uma simpatia absurda. O Pará ficou para trás, e fomos nós - até sabe deus onde - conversando sobre cinema, trilha sonora, música, design e arquitetura. Aí o Juliano desceu, e eu dormi até a rodoviária de Campinas.
Cheguei desesperada atrás de um café. Mas tinha que subir, comprar o translado para o aeroporto de Viracopos ( acho foda!), descer, procurar a plataforma, tudo isso com uma mala enorme, e uma calça manequim 42 da minhã irmã, caindo do quadril e dificultando tudo. Beleza, feito isso era só uma hora de espera até o ônibus chegar.
17:15h, pus a mala no bagageiro. Meu vôo era às 19h30, mas como não imprimi a passagem fiquei achando que era às 19h. Sou relapsa com essas coisas. Acabei chegando com folga, fiquei passeando até achar a livraria LaSelva, e entrei, né. Sempre compro pocketbooks em viagens. Moral da história, tava super fraco, e resolvi arriscar em um Carne Trêmula, de uma autora inglesa, livro que inspirou o filme do Almodóvar. Comprei, né. É um dos meus filmes preferidos dele. Já na sala de embarque, vi o Edgar, professor que deu palestra lá no EREA. Sério, esse cara não existe, parece um personagem de RPG. Fiquei com vergonha de ir falar com ele, e acho que ele me reconheceu, rs. Ficou por isso mesmo, entrei no avião.. 19:30h, graças a deus.

A maravilha das companhias aéreas brasileiras é vender passagens baratas pra gente, e muito mais baratas pra eles. Então, ao invés de gastar duas horas de Campinas até Vitória, gastei 5. Eles vendem os trechos duas vezes. Fizemos uma escala em Brasília, logo ali, super caminho. Genial - pensei- nunca fui à Brasília. Como já sabia que o aeroporto era na putaquepariu, imaginei que não fosse ver nada... maaaas.. sobrevoar e ver as luzes acesas da cidade, iluminando as quadras tão retilíneas, gente, é muito bonito. Fiquei igual uma bobona, lá, batendo palmas internas. Antes de sair, 21:30h, conheci a Larissa, jornalista daqui de Vitória. Larissa trabalhava na A Tribuna, e batemos algos papos sobre... jornalistas. Foi divertido. Foi ficando tarde, estávamos com fome, quase 22h, achamos que dava tempo de comer. Até que deu, mas nunca corri tanto na vida. Na volta do lanche, eu e Larissa pegamos o fim da fila para o embarque, o coração quase saindo pela boca, com medo de ficar em Brasília para sempre.

A Gol e seus lanchinhos medíocres querendo envergonhar a gente. Tomei uma água. Aceitei a balinha 7belo. Fiquei lendo o Carne Trêmula. Já estou desgostando porque não gosto muito de policial, ainda mais inglês. Mas tá.

Tinha esquecido como dói aterrisar, às vezes. Meu tímpano parece que vai explodir, e é quase sempre o direito. Fiquei sentindo uma dor absurda, respirando rápido, as lágrimas escorrendo pelo rosto, antes mesmo de anunciarem que estávamos pousando em Vitória. o:40h. Lembrei de um exercício de respiração que minha mãe me ensinou há um tempo atrás, e num arroubo de sabedoria comecei a fazê-lo. Meu ouvido parou de doer.

0:50h Desci do avião querendo catar minhas coisas e voar para casa. Para a minha infelicidade, rapidamente fui lembrada de que estava em Vitória. Agora existe uma fila para os táxis que você tem que entrar de qualquer jeito, mesmo que seja para cobrar no taxímetro. Eu não entrei, porque não sabia, e a mocinha do caixa deixou bem claro que eu estava errada. Já estava na minha vez, perguntei qual era diferença entre estar ao lado direito dela em vez de estar na frente. Ela não quis saber, e fez voltar para o fim da fila. Esperei mais três pessoas. Puta da vida, entrei no táxi, e não falei mais nada. Vivam as capixabices!

1:20h Maria Francisca urinou a varanda toda com a minha chegada. Wrawra, sempreteamei.
Contei bafons rápidos para Ju, e ela quis chorar por não ter ido. Entrei no meu quarto, com as malas todas, as mil folhas de PA ainda em cima da prancheta, tudo bagunçado. Cavei um buraco para dormir. Tomei banho. Tirei as lentes. Pus os óculos. Escovei os dentes. Fiz um chá. Tomei, e deixei um espaço para wrawra deitar. 2:10h, apaguei as luzes.

Tudo isso em um dia que meu celular indicou MG, SP, DF e ES.

Sunday, April 12, 2009

samba do grande amor.

Tinha cá pra mim
Que agora sim
Eu vivia enfim
O grande amor
Mentira..


Me atirei assim
De trampolim
Fui até o fim um amador
Passava um verão
A água e pão
Dava o meu quinhão
Pro grande amor
Mentira
Eu botava a mão
No fogo então
Com meu coração de fiador

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira


=)

(samba do grande amor, francisco buarque de hollanda)

Tuesday, April 07, 2009

observação #1

Na cidade amarela nos filmes, e cinza na vida real, chovia. Estava sozinha. Tinha pressa, mas ainda deitada observou o quarto como quem confere se algo está faltando. A cama baixa, a parede colorida, a TV, o quadro do ex na parede. Mil papéis.


Fez planos para o dia, ainda com sono. Escovou os dentes, lavou o rosto e mecanicamente fitou a parede, esquecendo-se que o espelho não estava mais ali.
Todo o seu francês gasto em dez páginas de fichamentos, as fotocópias, arrumou uma pequena mochila para sair. Às 8 horas, o barulho da máquina indicava que o café estava pronto. Esfregou os olhos, tomou o café de uma só vez.


Sempre ficava nostálgica quando voltava de viagens. Talvez não fosse nostalgia, e sim, algum tipo de subterfúgio. Antecedendo-as, se punha ansiosa e aflita. Era como se o mundo dependesse daquela viagem. Mas nunca dependia, e a sensação ao retornar a casa era a sempre a mesma: realidade.


Ultimamente, corria. Literalmente. Corria com as bolsas, as pastas, as mochilas, e tudo o mais que fosse necessário carregar para uma jornada de mais de oito horas fora de casa. Às vezes ia aos tropeços, derrubada as coisas. Era assim, tudo tão súbito que sua memória não era capaz de guardar o que fazia durante o dia, e ela era obrigada a se perguntar freqüentemente se já tinha feito isso ou aquilo. Nesta correria dos dias que não viu passar, deu para olhar o mundo diferente. Nunca se sentiu tão sozinha e deslocada de tudo. Era a sensação de ser espectadora de sua própria vida. As coisas, o tempo todo em câmera lenta, subplots que desconhecia, a lembrança do acidente de carro ecoando constantemente. “A gente com essa mania de tentar recuperar o tempo que passou, sempre, sempre... -pensou -, a vida aí, e a gente querendo aproveitar o futuro, e reviver o passado. Coisa idiota”.


Cansou de disse-me-disse, mas não prometeu parar de correr. Ainda tinha a lucidez de se prometer apenas o que podia cumprir.

Monday, February 02, 2009

classe média baixa blues.

tenho escrito uma caralhada de textos, mas estou sem coragem de organizá-los para postar.
tudo anda meio a mil, nem tão "summertime and the living is easy".
mas acredito em reviravoltas, e tudo pode mudar amanhã.
amém.

Wednesday, January 07, 2009

2008?

O meu texto de despedida de 2008 não vai ter tanto glamour. Não vai ser doloroso, não será um desabafo, nem nada. Afinal, já estamos ao fim da primeira semana do ano novo, e muitas coisas já aconteceram. O meu texto, na verdade, vai servir de memória para mim mesma. E aí outros vão ler, e talvez os sirva de alguma coisa, possivelmente não.
Só vale embarcar em outro ano com tudo. Se fosse para achar que as coisas continuariam na mesma, era melhor viver de passado, tudo seguro e conhecido. Mas não, vamos como quem não quer nada começar um ano, querendo mais, querendo que tudo seja melhor para todo mundo.
Para mim 2009 poderia ser como 2008. Com um pouco menos de cobrança própria e mais "foda-se", precisamente. Também com mais visitas regulares dos amigos que moram longe, e promoções mensais da tam e da gol. Paixões de verão a qualquer momento, e freelances caindo na cabeça. Podia ser assim, tava legal.
Mas não, saindo de casa pra morar com amigas, tá na cara que 2009 não vai ser 2008.

Ainda bem.. não vivo de saudades.

Fica aqui então registrada a minha gratidão imensa aos amigos que levaram comigo mais um ano cheio risadas, abraços e comemorações. As coisas ruins a gente esquece, até porque..



rá.
=)

Sunday, December 07, 2008

para fernando.

Joaquim era um cara legal e beirava os trinta anos quando saiu da casa da mãe para morar com a namorada. Nem gordo, nem magro, a barba sempre por fazer, gostava de fotografia e tropicalismos. Era um rapaz simpático e morava numa cidade relativamente grande, porém pequena o bastante para esbarrar com as mesmas caras conhecidas às sextas-feiras. Fazia planos pequenos e tinha orgulho de cumpri-los. Manteve a dignidade da sua vida pacata de jornalista, o violão, os vinis e os fins de tarde na praia. A vida toda viveu na mesma cidade, com a mesma namorada, e a calça jeans surrada que ganhou da avó aos vinte.

Devia ser dezembro, Joaquim estava sentado na sala encarando a parede. Perto de 2:20h, a namorada acordou confusa e viu que a luz da sala estava acesa:

- Joaquim, você não vem dormir? – disse sonolenta.
- A cama tá ali, se eu quisesse dormir já teria ido.
- Que é isso, Joaquim? Que agressividade é essa? Só te fiz uma pergunta...
- Quer saber? Tô cansado das suas perguntas! Tô indo embora pra onde ninguém se importa se vou ficar acordado ou não.

Bateu a porta e saiu andando apressado sem olhar muito bem para onde ia. Às três horas, o único bar aberto servia seus últimos clientes.

- Garçom, uma dose de cachaça da mais barata – berrou.
- Que é isso, meu garoto? Noite difícil? – perguntou docemente o velho da mesa ao lado.
- Garçom, posso trocar de mesa? – gritou impaciente.
- nossa, que mau humor... – comentou o velho distraído.
- ah, pra p...

Andou até o balcão e virou a dose lá mesmo, com pressa.
Saindo do bar, resolveu caminhar um pouco. A rua estaria deserta, se não fossem os últimos grupos de pessoas voltando para casa, com o ar desiludido do resto do final de semana. Joaquim não tinha para onde ir, nem queria ter. Às 4:25h parou em frente à estação de metrô e observou dois garotos emos com camisas pró-Greenpeace. Contou os minutos para a estação abrir, e o tempo passou cada mais devagar para irritá-lo. Um grupo de adolescentes se aproximou alucinados com o show da Madonna. Joaquim gostaria que a Madonna ficasse quieta e parasse com suas declarações estúpidas.

O dia seguinte era segunda-feira e ele desejou não ter tanto o que fazer. Sonhou tirar férias da vida, de tudo. Imaginou-se pixando a porta da redação do jornal que trabalhava. Fumou três cigarros e jogou o resto do maço fora. Sentou-se na escada em frente a casa da namorada, e às 5:40h bateu à porta:

- Olha... eu voltei. – disse baixinho.

Passou direto ao quarto, e se jogou na cama. Não havia nada de errado com ele. Joaquim só não queria mudar o mundo.





Ps: esse texto foi assim:

"06/12/2008
01:54:06
.:. clara
ai, tanta coisa pra fazer, e tanta falta de vontade. rs
Fernando Duarte
a vida é triste, ne? com vontade conquistaríamos o mundo
.:. clara
ah, vontade de conquistar o mundo eu até tenho
.:. clara
vamos falar sobre outra coisa
.:. clara
por exemplo
.:. clara
fala uma coisa legal pra eu escrever sobre
Fernando Duarte
falta de vontade para conquistar o mundo
.:. clara
sério?
Fernando Duarte
pq não? ".

Friday, November 21, 2008

amar é lento.

Queria uma Gisele, mas ficou com Maria.

Afinal, a vida não podia ser tão diferente do que os outros repetiam tantas vezes, não se pode ter tudo. E mesmo assim, o resultado nem deve ter sido doloroso. Maria era amorosa, dedicada, uma especialista nos cuidados do lar. Acabou desenvolvendo por ela uma admiração cotidiana que não pôde fugir à regra: era amor.

Juliano já era homem quando a mãe, chamando-lhe em um canto, o encurralou sem rodeios: “você é gay?”. Antes que pudesse responder, a mulher deu as costas e se pôs a chorar um choro pesado de frustração. Não era nada disso. A verdade é que era muito reservado, e por conta disso, a família se reunia em segredo semanalmente para analisar seu comportamento. Não fora um jovem peculiar. Boa parte de sua adolescência passou trancado dentro de um quarto jogando vídeo-game e escondendo revistas de mulheres nuas embaixo da cama. Os anos foram passando, e nada mudou. Seguindo a velha ordem da vida, já era hora de ter conhecido alguém. De molecote esquisito, passou a um adulto recalcado, e as notícias do mundo lhe interessavam tanto quanto os jogos juvenis esquecidos numa caixa de papelão. Só uma coisa o fazia se sentir vivo. E por mais estranho que isso soasse, a preocupação de sua mãe teria diminuído drasticamente se ela soubesse que, na realidade, o filho era apaixonado, sim. Por mulheres.. bonitas.

Todos os dias, saía de casa para o emprego medíocre que conseguiu sem estudar. Fazia sempre o mesmo percurso, uma rua movimentada de quatro pistas, calçadas largas, poucas árvores, muitas lojas e edifícios comerciais. Era impressionante a quantidade de mulheres belíssimas que circulavam naquele horário. Com o passar do tempo, sentiu-se obrigado a fracionar seu horário de almoço, para que pudesse ter dois momentos de contemplação em via pública, seguindo à catarse de imagens e sensações que esmagavam seu corpo. Turbilhões de pensamentos ricocheteavam por todos os cantos de sua cabeça, procurando entender de onde viam aquelas criaturas magníficas. Eram tantas e tantos cheiros, tantas cores e balanços de quadris. Ficava maravilhado. Diariamente, durante os intervalos que conseguia obter, sentava-se em um café do outro lado da rua de um centro comercial. Era um cafezinho simpático destes com as mesinhas de madeira na calçada e garçons atenciosos. A dona do estabelecimento, Dona Iraci, já reservava uma mesa especial naquele horário pra ele. O homem sentava, com sua eterna cara de moço, pedia um expresso sem creme, e iniciava seu ritual. As mulheres deslizavam sobre a rua em direção ao café, ou a qualquer outro lugar. Planavam em suas pernas tão delgadas e singelas, as roupas levitando conforme caminhavam, os cabelos volumosos ao vento. Analisava suas expressões, seus perfumes- que alteravam-se conforme o humor do dia-, os tons de voz. Imaginava-se com elas, em viagens inesquecíveis pela Europa. As que entravam no café ousou perguntar seus nomes. Cafés com Anas, Claras, Luísas... tornou-se um conhecedor profundo da feminilidade que o cercava e habitué do local. Ao contrário de poetas com alma de mulher, Juliano não escrevia, nem tinha jeito para retórica. Manteve a sua alma de homem em eterno estado de contemplação.

Tudo poderia ser resumido assim, e talvez permanecesse dessa forma por muito tempo, naquele emprego, naquele trajeto, na família sussurando intervenções. Até que outra personagem entrou em cena. Mas não desbancou as anteriores, nem foi alvo de declarações e êxtases. Era só Maria, a garçonete do café. Mocinha simples, inteligente, cabelinhos sem corte, se divertia com o sujeito pontual que se sentava à mesa 7, e pedia sempre a mesma coisa. Maria tornou-se admiradora exclusiva dele. Também buscava seu cheiro, suas expressões. O coração batia mais forte quando o via atravessar a rua, e com muito custo foi traçando um plano de aproximação.

Antes que os amigos concretizassem de uma vez por todas a tão pensada intervenção familiar, resolveram segui-lo por uns dias. Chocados com a descoberta, tão cedo a repassaram à família, Juliano apareceu em casa. Não estava só. A mão esquerda magrela, segurava outra mãozinha talvez menos esquálida, a de Maria. A família correu para a sala, a mãe sustentava uma expressão tão boquiaberta que seu nariz desaparecera.

Até aquele ponto, nunca soubera o que era amor, só o sublime. A cumplicidade com Maria fez com que aprendesse a singeleza da mulher, nos mínimos detalhes. A proximidade com ela mudou seu cotidiano, e fez novos rituais.
Às vezes, imaginava como seria se Maria fosse uma Gisele. Mas era uma idéia vazia que rapidamente se dissipava entre tantos outros pensamentos bons. Decidiu ouvir o conselho dos outros, e ficou com a que lhe tratava bem.
Terminavam todos os dias assim, deitados na cama, o rosto virado para ela, observando-a dormir.

ps: mais um texto sem revisar cautelosamente. tenho medo de desgostar neste processo, rs.
Esse é bom pra ouvir ao som de ... um monte de coisa. mas vou deixar a dica de deusa urbana, do caetano.

Sunday, November 02, 2008

Cíntia.

Fazia o que podia, mas Cíntia era uma mulher feia. Quando nasceu, a mãe olhando o berço noite adentro deixou soltar um suspiro longo e triste. Dessa maneira, desde pequena, foi encorajada a desenvolver pequenos talentos. Era habilidosa nas tarefas domésticas, paciente e possuía uma pontualidade implacável. Todos esses bons feitos, se não fosse feia.
Aos 18 anos, e aparentando ter muito mais, saiu da casa da mãe para tentar a vida na capital, que era longe, como professora. Todo o dia olhava-se no espelho. O rosto assimétrico, a pele manchada, os dentes desesperados para sair. Era como se esperasse uma nova imagem surgir naquele pedaço velho e carcomido pelo tempo. Como era de se imaginar, nada mudou. A não ser pelo fato de que, com o tempo, ia ficando ainda mais feia.
Cíntia desenvolveu um misto de paciência e reflexão que a tornaram uma narcisa ao contrário. Nunca se permitiu ter amores. Era tão consciente de sua ausência de beleza que era capaz de se desculpar ao entrar em lugares públicos. As mulheres bonitas a incomodavam horrorosamente, não conseguiu ter amigas. Sua única companhia era o velho gato doente que ganhou de um aluno, porque a mãe do moleque queria se desfazer do bichano.
Apesar de tudo, não era triste. Ajeitava os poucos cabelos que lhe restavam à cabeça pra ir à missa, e agradecia a Deus por estar viva. Na escolinha, as crianças gostavam dela, e por lá ficou cerca de quatro anos. Teria ficado mais, se não tivesse recebido uma carta de alguém avisando que a mãe ficara doente, e necessitava de cuidados. Imediatamente, juntou o pouco que ganhava para comprar uma passagem de volta à casa da mãe, a sua cidade natal de onde nunca deveria ter saído.
Ao chegar à casinha velha que nasceu, bateu à porta sem hesitar e esperou por resposta. Quanto tempo se privou de tudo por aquela viagem, pelo momento que viria a seguir. A pobreza evidenciada nas roupas e na colônia barata, o sol de meio-dia rachando em sua cabeça, escutou os passos. Era importante voltar pra casa, cuidar da mãe, o único ser humano que se deu ao luxo de abandonar.
Foram os dois minutos mais longos de sua vida. A mãe vinha caminhando em sua velocidade senil dentro da casa, ouviu-a tossir e girar a chave na fechadura. Ao abrir a porta e ver sua figura feia, a mãe caiu estatelada no chão. Infarto fulminante.
* a preguiça de revisar o texto foi grande, importante frisar.

Wednesday, October 15, 2008

convite.

No lado mais esquerdo da calçada, encostados no gradil alaranjado que contornava todo o terreno da escola, o velho e a neguinha travavam conversa sobre amenidades. A mocinha segurava uma sacola qualquer, e parecia ter sido tomada de surpresa. Era muito jovem, baixa, cabelos alisados e tinha um nariz fino, que casava bem com sua delicadeza. Ria alto. Apoiavam-se os dois no gradil, a perna esquerda flexionada sobre a mureta, o calor de fim de tarde evidenciando-se com os poucos ventos. Certamente o velho fizera-lhe um convite. A menina se esquivava, como num jogo, mas não saía do lugar. Observei-os por quase dez minutos. Quando cheguei, eles já estavam lá, feito personagens de um cenário fixo. A cena deve ter durado umas dessas pequenas eternidades que perfazem o dia. Nunca soube quem eram, e o que a menina decidiu fazer. Tomei o primeiro ônibus municipal e deixei os dois para trás, como quem vira a página após terminar um capítulo.

amor de longe.

O sol incidia pela única janela do cômodo, e fazia crepitar por vezes o piso velho de tábua de madeira. Em nenhum momento ouviu-se a menina falar. Era uma daquelas tardes de verão em que nada se move, e o calor faz surgir uma onda densa e estática, impossível de sustentar.
Quase duas horas, o cachorro acomodou-se junto à porta aberta para olhar lá fora. Bem distante, vinha um caminhão carregado de latas, cambaleando pela estrada esburacada. As pessoas faziam fila em suas cerquinhas brancas para recebê-lo. Uma vez por semana, o leiteiro aparecia naquela vila que nunca chegava nada. Trazia notícias, contava floreios para as moças. Ao vê-lo se aproximar, um moço alto, magricela, desses com sorriso simpático e humilde, a menina estremeceu por dentro. Fazia uma semana, bordava um lenço para ele. Entregou-o ao rapaz, e junto com o dinheiro do leite, dois passos para trás e um aceno. Não disse uma palavra. O leiteiro esboçou um sorriso em retribuição, e a menina correu para fechar a porta. Suspiro. Mais sete dias.

Wednesday, September 24, 2008

maré, assim.

De tanto me perder, de andar sem sono
Por essa noite sem nenhum destino
Por essa noite escura em que abandono
Os sonhos do meu tempo de menino

De tanto não poder mais ter saudade
De tudo que já tive e já perdi
Dona menina
Eu me resolvo agora ir me embora
Pra bem longe daqui
Um dia desses eu me caso com você
você vai ver.. ai, ai..
você vai ver.


( do cd que tenho escutado incessantemente: adriana calcanhotto - maré.)

Wednesday, June 04, 2008

ticking away the moments that make up a dull day..."

tem uma coisa da inércia que não me explicaram direito:
o tempo continua passando, mesmo que desapercebido. e aí, comofas?

agora que meu celular quebrou, tenho encontrado dificuldades em descobrir que em que dia estamos.
agora que voldemort morreu, não senti ainda vontade de abrir outro livro ( apesar da pilha que só cresce, e é real).
agora que retomei algum tipo de normalidade, não sei como ganhar tempo, ou ter tempo.




fica a dúvida.


Sunday, April 06, 2008

é desmedida.

.:.

I'm only happy when it rains
I'm only happy when it's complicated
And though I know you can't appreciate it
I'm only happy when it rains

You know I love it when the news is bad
Why it feels so good to feel so sad?
I'm only happy when it rains

Pour your misery down
Pour your misery down on me